Quando começamos a experimentar ferramentas de IA na Refinaria Design, nossa primeira reação foi um misto de fascinação e um leve pânico existencial.
A IA gera logos em segundos. Cria paletas de cores. Sugere composições. Escreve briefings. Ficamos nos perguntando, de forma bastante séria, qual era, afinal, o nosso papel nisso tudo.
Ainda não temos uma resposta definitiva. Mas temos algumas percepções que mudaram a forma como pensamos sobre o valor do design gráfico hoje.
Essa história vem de longe
A promessa de “design sem designer” não é nova. Ela só ficou mais sofisticada com o tempo.
Em 2013, o Canva chegou com uma proposta simples e sedutora: qualquer pessoa pode criar. Oferecendo mil templates prontos, a opção de arrastar e soltar, tudo com resultados imediatos. Logo vieram outras novidades tecnológicas, cada uma prometendo democratizar o design e, nas entrelinhas, reduzir a dependência de um profissional. Sem reunião. Sem processo. Sem espera.
Depois vieram as IAs generativas e plataformas inteiras construídas em cima delas. Agora não são mais templates, é geração. A máquina cria do zero, aprende com o que você rejeita, e entrega variações infinitas com velocidade impressionante. Cada onda prometeu a mesma coisa: mais autonomia, menos fricção, menos intermediários.
E isso levanta uma pergunta: por que o mercado continua tentando eliminar os profissionais do processo?
Por que a interação com designers incomoda
Parte da resposta está no processo em si. Trabalhar com um designer exige tempo. Exige briefing, reuniões, rodadas de revisão, conversas sobre o que funciona e o que não funciona. Exige disponibilidade para explicar a empresa, o público, os valores, e muitas vezes reexplicar quando a primeira versão não traduz o que estava na cabeça.
Há um custo de comunicação aí que é real. E num mundo onde tudo precisa ser para ontem, esse custo parece alto demais.
Também existe uma assimetria de linguagem que pode ser frustrante para quem contrata: o cliente sabe exatamente o que quer sentir, mas nem sempre sabe nomear em termos visuais. O designer sabe o vocabulário, mas precisa extrair a essência de quem não o fala. Esse descompasso, quando mal conduzido, vira desgaste.
Então faz sentido que ferramentas que prometem pular essa etapa pareçam atraentes. A lógica é compreensível: menos interação humana, menos atrito, mais agilidade.
O problema é o que se perde no caminho.
A conversa que parece custo, mas é o produto
Quando a interação com o designer é bem conduzida, com escuta real, processo claro e respeito mútuo, ela não é um obstáculo. É onde o projeto acontece de verdade.
É nessa conversa que emerge o que o cliente não sabia que sabia: que a empresa está passando por uma transição e a identidade precisa refletir isso. Que o tom jovial que parece certo pode alienar os clientes mais antigos, que são os mais fiéis. Que o concorrente acabou de mudar a identidade e agora é hora de se diferenciar ou de se aproximar.
Nenhum formulário captura isso. Nenhum template processa isso. E uma IA, por mais sofisticada que seja, não tem acesso a esse contexto se ninguém trouxer ele para o processo.
A interação com o designer não é o custo do projeto. Em muitos casos, ela é o projeto.
Curadoria é uma habilidade (e das mais difíceis)
Quando a IA gera 40 opções de logotipo em três minutos, alguém precisa escolher qual delas faz sentido. E mais importante: explicar por quê.
Essa escolha não é aleatória. Ela envolve julgamento estético, conhecimento de mercado, compreensão da marca e, muitas vezes, coragem de defender uma direção quando a primeira reação é ir para o caminho mais óbvio.
Curadoria é design. Talvez seja, hoje, uma das partes mais valiosas do trabalho e uma das menos visíveis para quem está de fora do processo.
O perigo do visual genérico
Existe um risco que ainda se fala pouco: as ferramentas de IA de design são usadas por milhares de pessoas ao mesmo tempo, treinadas nos mesmos dados, com os mesmos padrões estéticos internalizados. O resultado natural disso é uma tendência à uniformização.
Não é teoria. Já é possível encontrar logos geradas por IA que se parecem de forma desconcertante com outras logos geradas por IA. As mesmas formas arredondadas, mesma família tipográfica, mesma paleta de tons pastéis ou gradientes vibrantes dependendo do “estilo” escolhido. Cada vez mais veremos empresas diferentes, às vezes na mesma cidade, com identidades visualmente idênticas.
Para uma marca, isso é um problema sério. Identidade visual existe para diferenciar, para ser reconhecível, para criar memória. Uma logo que poderia pertencer a qualquer negócio não pertence, de verdade, a nenhum.
O designer parte de um lugar diferente: o contexto específico daquele cliente, daquele mercado, daquele público. O trabalho é criar algo que não poderia ser de mais ninguém. Isso não é romantismo sobre o processo criativo, é a função básica de uma identidade visual bem feita.
Então, o designer ainda importa?
Importa. Mas talvez de um jeito diferente do que importava antes. Menos como executor de tarefas visuais, mais como alguém que conduz um processo e que sabe que esse processo tem valor por si mesmo. Menos como produtor de arquivos, mais como guardião do que a marca diz e do que ela não deveria dizer.
A IA virou uma ferramenta poderosa. Mas ferramenta não substitui quem sabe usá-la com intenção, nem quem sabe que alguns resultados só chegam através da conversa, e não apesar dela.
E intenção, até agora, ainda é nosso território.