Recentemente, a atriz Luana Piovani fez uma chamada nas redes sociais pedindo que designers enviassem propostas para o convite do seu aniversário. Ela deixou claro que pagaria pelo trabalho, e esse detalhe foi suficiente para gerar uma onda de entusiasmo entre profissionais da área. Afinal, uma famosa que remunera? Já é mais do que muita gente oferece.
Mas por baixo desse entusiasmo há um problema que vale a pena olhar com mais cuidado.
A lógica do concurso
O modelo funciona assim: uma pessoa ou empresa lança uma chamada pública, designers criam e enviam suas propostas, e apenas uma é escolhida e paga. Todos os outros trabalham de graça.
À primeira vista, parece justo. Há um vencedor, há uma remuneração. O problema é que design não é um jogo de loteria: é trabalho. Pesquisa, esboços, escolhas de tipografia, paleta de cores, conceito visual, tudo isso consome tempo real de profissionais reais. E nesse modelo, esse tempo é descartado sem nenhuma contrapartida para a maioria dos participantes.
Imagine pedir a dez arquitetos que projetem a planta da sua casa, prometer pagar apenas para um, e depois escolher aquele que mais agradou. Ou contratar dez redatores para escrever o mesmo texto e remunerar somente o escolhido. Parece absurdo? Para o design, é uma prática comum, e por isso mesmo, normalizada.
“Mas é uma oportunidade de exposição!”
Esse é um dos argumentos mais usados para justificar concursos de criação sem remuneração garantida: a chance de ter o trabalho visto, de aparecer, de construir portfólio. E há um grão de verdade nisso, visibilidade importa, especialmente no início de carreira.
O problema é quando a “exposição” substitui sistematicamente o pagamento. Nenhum outro profissional é convidado com tanta frequência a trabalhar de graça em troca de aparecer. Não se pede ao encanador que conserte o cano gratuitamente “para que as pessoas vejam como ele trabalha bem”. Não se pede ao médico uma consulta sem honorários “como investimento na sua reputação”.
O design carrega, historicamente, uma desvalorização difícil de sacudir. Parte disso vem do fato de que o resultado final parece simples, um convite bonito, um logo elegante. O que fica invisível é tudo o que está por trás: o processo criativo, as horas de refinamento, o conhecimento técnico acumulado ao longo de anos.
O caso Luana Piovani
A atriz não agiu com má-fé, e isso é importante dizer. Ela se comprometeu a pagar, o que já a coloca um passo à frente de quem nem isso oferece. Mas o episódio revela algo curioso: ela não sabia quanto deveria pagar e pediu sugestões ao próprio público.
Aqui mora uma questão estrutural. Quando quem contrata não tem ideia do valor do serviço que está pedindo, a negociação começa desequilibrada. O profissional entra em desvantagem ou aceita qualquer valor por medo de perder a oportunidade, ou não é escolhido e sai sem nada.
Além disso, ao abrir para múltiplas propostas antes de definir um briefing claro e um orçamento, o processo coloca o ônus criativo nos ombros de quem não tem ainda nenhuma garantia de retorno.
O que seria diferente?
Não se trata de proibir concursos ou chamadas criativas, eles existem em contextos legítimos, com regras claras, premiações proporcionais e participação voluntária e consciente. O problema é quando o modelo é usado de forma irrefletida, como se fosse apenas uma forma prática de ter opções antes de decidir.
Existe uma alternativa mais justa, e surpreendentemente simples: analisar portfólios. Em vez de pedir que designers criem algo novo sem garantia de retorno, quem contrata pode pedir que profissionais interessados enviem seus trabalhos anteriores. A partir daí, escolhe aquele cujo estilo e repertório mais combinam com o que se busca, e contrata esse profissional diretamente, com briefing, prazo e remuneração definidos desde o início.
Essa lógica inverte o problema de forma elegante: o designer é avaliado pelo trabalho que já fez, trabalho que existiria de qualquer forma, e não pelo que produz de graça na esperança de ser escolhido. É exatamente assim que a maioria das outras profissões criativas funciona. Um fotógrafo é contratado pelo seu book. Um ilustrador, pelos seus projetos anteriores. Não faz sentido que o design seja diferente.
Ou, se a ideia for mesmo abrir para concurso, o mínimo seria remunerar todas as propostas recebidas, pelo menos com um valor simbólico que reconheça o tempo investido.
O que está em jogo não é apenas dinheiro. É o reconhecimento de que criatividade é trabalho, e trabalho tem valor, independentemente de quem vence a disputa.
Uma reflexão para além do caso
A reação de muitos designers ao anúncio da Luana Piovani, animados com a simples promessa de pagamento, diz muito sobre o quanto essa categoria está acostumada a trabalhar sem garantias. Quando a expectativa mínima de remuneração já parece um diferencial, algo está errado.
Consumidores de design, sejam celebridades, pequenas empresas ou grandes corporações, têm um papel nisso. Cada vez que uma chamada como essa é lançada sem estrutura justa, ela reforça a ideia de que o tempo do designer é negociável, condicional, descartável.
Pagar pelo trabalho criativo não é favor. É o básico.