Quem trabalha com design há algum tempo sabe que as ferramentas mudam, mas o projeto continua precisando passar por algumas etapas até chegar a um bom resultado.
Na Refinaria, dividimos nosso processo de design em cinco momentos: briefing e diagnóstico, bases do projeto, desenvolvimento, arte-finalização e produção. Dependendo do tamanho e da natureza do trabalho, algumas etapas são mais longas, outras mais simples, mas essa estrutura está presente na maioria dos projetos que desenvolvemos.
Nos últimos anos, porém, percebemos uma mudança importante nesse processo. E ela não aconteceu apenas dentro dos escritórios de design.
Com a popularização das ferramentas de inteligência artificial, os próprios clientes passaram a experimentar mais. Geram imagens, pesquisam estilos, testam soluções e chegam até nós com ideias visualmente muito mais definidas.
Isso trouxe mais autonomia para quem contrata design, mas também começou a mudar a percepção sobre o nosso trabalho: quanto tempo um projeto deveria levar? O que ainda precisa ser feito por um designer? E quanto faz sentido pagar por isso?
Para responder, vale entender o que acontece em cada etapa de um projeto de design.
1. Briefing e diagnóstico
Todo projeto começa por entender o que precisa ser resolvido.
O briefing reúne informações sobre o cliente, o público, os objetivos da comunicação, o conteúdo, as peças necessárias, as limitações e o contexto em que aquele trabalho vai existir.
Até pouco tempo atrás, era comum essa conversa começar pelas perguntas. Hoje, muitas vezes ela começa pelas respostas.
O cliente chega com imagens geradas por inteligência artificial, referências muito específicas, simulações e composições prontas. Em vez de explicar primeiro o que procura, mostra uma imagem e diz: “queremos algo assim”.
Referências sempre fizeram parte do processo criativo. A diferença é que ficou muito fácil transformar uma ideia vaga em uma imagem bastante convincente.
Isso ajuda, claro. Uma imagem pode revelar preferências e expectativas que seriam difíceis de explicar em palavras. O problema é quando ela encerra uma discussão que ainda nem começou.
Precisamos entender por que aquela referência parece adequada. É a cor? A tipografia? A atmosfera? A organização da informação? O tipo de imagem? E, principalmente, aquela solução faz sentido para o conteúdo, para o público e para os objetivos do projeto?
Por isso, as imagens trazidas pelo cliente podem fazer parte do briefing, mas não substituem o diagnóstico.
2. Bases do projeto
Com o problema mais bem definido, começamos o que chamamos na Refinaria de bases do projeto: a criação dos caminhos gráficos.
É nessa etapa que trabalhamos tipografia, cores, imagens, grafismos, composição e hierarquias para estabelecer a linguagem visual que será usada no restante do projeto.
A inteligência artificial também mudou a dinâmica dessa fase. Muitos clientes já chegam tendo experimentado diferentes possibilidades e, algumas vezes, bastante apegados a uma delas.
Isso não é necessariamente ruim. Pode tornar a conversa mais objetiva e ajudar a identificar rapidamente preferências visuais.
Mas uma referência ou uma imagem isolada ainda precisa se transformar em uma solução gráfica que consiga responder às necessidades reais do trabalho.
Uma capa pode ser ótima como imagem e não oferecer recursos suficientes para organizar uma publicação inteira. Uma solução interessante para um cartaz pode não funcionar quando aplicada a uma campanha com dezenas de peças. Uma estética atraente pode simplesmente não ser adequada ao conteúdo ou ao público.
As bases do projeto servem para definir esse caminho antes de partir para todos os seus desdobramentos.
3. Desenvolvimento do projeto gráfico
Depois que o caminho é escolhido e aprovado, começa o desenvolvimento.
É nessa etapa que aplicamos a linguagem criada às peças previstas no projeto.
Em um projeto editorial, por exemplo, precisamos resolver páginas com diferentes quantidades e tipos de conteúdo, fotografias, ilustrações, tabelas, gráficos, boxes e hierarquias de informação. Em uma identidade visual, testamos como o sistema se comporta nas diferentes aplicações. Em uma campanha, adaptamos a linguagem aos vários formatos necessários.
É também aqui que uma solução precisa mostrar que consegue ir além da primeira imagem.
Um formato quadrado não se transforma automaticamente em um banner horizontal. Uma composição pensada para uma tela pequena pode precisar ser completamente reorganizada para funcionar em um painel de grandes dimensões.
É preciso reposicionar elementos, rever proporções, adaptar imagens e criar soluções específicas sem perder a unidade visual.
Esse trabalho de desenvolvimento transforma uma proposta gráfica em um sistema capaz de funcionar em situações diferentes.
4. Arte-finalização
Com todas as peças desenvolvidas e aprovadas, entramos na etapa de arte-finalização.
E aqui encontramos hoje um dos principais gargalos das soluções gráficas produzidas com inteligência artificial.
Uma imagem gerada por IA pode parecer pronta, mas isso não significa que exista um arquivo pronto para produção gráfica.
Uma gráfica precisa receber arquivos com dimensões corretas, resolução adequada, sangrias, margens de segurança, padrões de cor e todas as especificações necessárias ao processo escolhido. Dependendo do trabalho, entram ainda facas de corte, áreas de verniz, cores especiais, acabamentos e uma série de outras informações técnicas.
Além disso, uma imagem gerada por inteligência artificial pode não ter resolução suficiente ou não possuir seus elementos separados e editáveis. Em alguns casos, uma solução que parece pronta na tela precisa ser parcialmente ou totalmente reconstruída para que possa ser produzida.
Para quem não trabalha diariamente com produção gráfica, essa diferença nem sempre é evidente.
O que aparece na tela é a representação do resultado. A arte-finalização é o trabalho necessário para transformar o projeto aprovado em arquivos que possam efetivamente produzir esse resultado.
5. Produção gráfica
Nos projetos impressos ou que envolvem fabricação, nosso trabalho não termina com o fechamento dos arquivos.
Também fazemos o acompanhamento da produção, conversando com gráficas e fornecedores, analisando provas, conferindo cores, materiais e acabamentos e resolvendo questões que surgem durante o processo.
Um projeto pode mudar bastante entre a tela e o objeto produzido. O papel interfere na cor, o material interfere no acabamento e determinados processos de impressão ou fabricação têm possibilidades e limitações próprias.
Por isso, consideramos o acompanhamento de produção parte do projeto de design.
Afinal, a inteligência artificial reduz o tempo e o preço de um projeto de design?
Em alguns casos, sim.
Algumas tarefas ficaram mais rápidas. Outras podem simplesmente deixar de ser necessárias. Um cliente que consegue resolver sozinho uma peça gráfica simples talvez realmente não precise mais contratar um escritório de design para fazê-la.
Não adianta fingir que essa mudança não existe.
Também é possível que um cliente chegue com uma ideia tão bem encaminhada que parte do processo seja encurtada. Se há menos trabalho, faz sentido rever escopo, prazo e orçamento.
O que não funciona tão bem é usar o tempo necessário para gerar uma imagem como medida do tempo necessário para desenvolver um projeto.
A criação da primeira proposta é apenas uma parte do trabalho.
Há o diagnóstico, a definição da linguagem, o desenvolvimento das peças, as adaptações, a arte-finalização e, quando necessário, o acompanhamento da produção.
E há uma situação que começa a aparecer com alguma frequência: em vez de encurtar o trabalho, a imagem gerada por IA apenas muda o ponto em que ele começa. Recebemos algo visualmente próximo do resultado desejado, mas que precisa ser repensado, reconstruído ou adaptado para funcionar como projeto.
É possível que a inteligência artificial esteja mudando também o tipo de trabalho para o qual um escritório de design será contratado.
Se produzir uma peça gráfica simples ficou acessível a praticamente qualquer pessoa, o valor do trabalho do designer tende a se deslocar para aquilo que é mais difícil automatizar: entender o problema, estabelecer critérios, fazer escolhas, organizar sistemas visuais, resolver diferentes aplicações e conduzir o projeto até sua produção.
O que mudou no processo de design?
Talvez a maior mudança até agora esteja no começo do processo.
O cliente ganhou ferramentas para chegar mais longe sozinho. Isso é positivo e pode tornar alguns projetos mais rápidos. Mas também pode criar a sensação de que, se a imagem já existe, grande parte do trabalho já foi feita.
Nem sempre foi.
Entre uma imagem de referência e um projeto pronto existem decisões que não aparecem necessariamente na primeira apresentação: como aquela linguagem vai funcionar nas demais peças, como vai se comportar com outros conteúdos, como será adaptada aos diferentes formatos e como será produzida.
A inteligência artificial tornou muito mais fácil chegar a uma imagem. Agora estamos descobrindo, clientes e designers, o quanto isso muda o caminho até chegar a um projeto.
Perguntas frequentes sobre projetos de design e inteligência artificial
Quais são as etapas de um projeto de design?
Na Refinaria, dividimos o processo em cinco etapas principais: briefing e diagnóstico, bases do projeto, desenvolvimento, arte-finalização e produção. A duração e a complexidade de cada etapa variam de acordo com o tipo e o tamanho do projeto.
A inteligência artificial pode reduzir o prazo de um projeto de design?
Sim. Algumas tarefas podem ser realizadas mais rapidamente com o auxílio de ferramentas de inteligência artificial e clientes podem chegar ao projeto com referências e ideias mais desenvolvidas. Isso pode reduzir algumas etapas ou o escopo do trabalho. Mas uma imagem gerada por IA ainda pode precisar ser desenvolvida, adaptada aos diferentes formatos e preparada tecnicamente para produção.
Posso levar imagens criadas por inteligência artificial para um projeto de design?
Sim. Imagens geradas por IA podem funcionar como referências e ajudar a comunicar preferências de estilo, composição, cores ou atmosfera. Durante o briefing, analisamos essas referências junto com os objetivos, o conteúdo e as necessidades do projeto para definir o caminho gráfico mais adequado.
Uma imagem gerada por IA pode ser enviada diretamente para uma gráfica?
Nem sempre. Para impressão e outros processos de produção gráfica, é preciso verificar dimensões, resolução, cores, sangrias, margens de segurança e outras especificações técnicas. Imagens geradas por IA também podem não possuir elementos editáveis ou resolução suficiente para o tamanho em que serão utilizadas.
Se eu já tenho uma solução criada por IA, ainda preciso contratar um designer?
Depende do que precisa ser feito. Para algumas peças simples, uma solução criada pelo próprio cliente pode ser suficiente. Projetos que envolvem diferentes formatos, grandes volumes de conteúdo, identidade visual, publicações ou produção gráfica geralmente exigem desenvolvimento, adaptação e preparação técnica para que a solução funcione de maneira consistente.