Desde que contamos que estamos vendendo e doando boa parte dos quase 800 livros da biblioteca da Refinaria, muita gente nos pergunta a mesma coisa: mas por quê? A resposta curta é que precisamos de espaço. A resposta longa é bem mais interessante.
A sede da Refinaria vai ganhar novos usos e começamos a olhar para tudo o que acumulamos em quase 30 anos de trabalho. E um escritório de design pré-internet era, entre outras coisas, uma máquina de acumular papel. Antes de sites, PDFs, Instagram e Behance, era assim que se mostrava trabalho: imprimindo. Guardávamos portfólios, provas, publicações, pranchas, apresentações e exemplares dos projetos que fazíamos. Começamos a arrumação por aí e o resultado foram quase 100 sacos de coleta seletiva foram encaminhados para reciclagem. Sobrevivemos. Então chegou a vez das estantes.
Para quem começou a trabalhar com design depois da internet, talvez seja difícil imaginar a importância que os livros tinham na nossa profissão. Não existia Pinterest, Behance ou Instagram, e descobrir o que estava sendo feito por um estúdio no Japão, na Holanda ou nos Estados Unidos exigia algum esforço. Comprávamos muitos livros de vendedores que iam pessoalmente ao escritório mostrar os lançamentos, uma espécie de caixeiros-viajantes do design. Os vendedores da Rio Books apareciam carregados de novidades e faziam uma ponte preciosa entre o que estava sendo produzido no mundo e a nossa mesa no Rio de Janeiro.
Tivemos ainda uma sorte extra: Julius Wiedemann, que durante muitos anos foi editor da Taschen, é irmão da Rafaela, sócia da Refinaria. Por uma feliz coincidência familiar, acompanhamos muito de perto esse universo das publicações de design, seus autores, projetos e curadorias. Nossa biblioteca foi crescendo assim, livro a livro: design gráfico, tipografia, fotografia, ilustração, arquitetura, identidade visual, design editorial, anuários, catálogos, revistas e muita arte. Era nosso Google. Só que pesava bastante e ocupava uma parede inteira.
Mesmo com todas as plataformas de referências que temos hoje, continuamos achando que os bons livros de design conseguem fazer uma coisa muito especial: surpreender. Existe uma curadoria por trás deles. Alguém pesquisou, selecionou e colocou aqueles projetos em relação. E existe o acaso de virar uma página e encontrar algo que você jamais teria pensado em procurar. Você podia abrir um livro atrás de uma referência tipográfica e descobrir, algumas páginas depois, um projeto que mudava completamente o rumo de uma ideia. O Pinterest é ótimo — nós usamos —, mas seu algoritmo aprende rapidamente o que você gosta e fica cada vez melhor em oferecer mais daquilo. O livro, felizmente, não fazia a menor ideia do que você gostava.
Livros de design, repertório e formação
Talvez seja justamente por isso que esses livros continuem tão importantes para estudantes de design. Aprender design passa pela construção de repertório, e repertório não é simplesmente acumular imagens bonitas em uma pasta. É conhecer autores, movimentos, épocas, técnicas e linguagens; entender por que determinados projetos funcionam; perceber como outros designers resolveram problemas e descobrir coisas que, a princípio, nem faziam parte dos seus interesses.
Quando toda a pesquisa acontece dentro das plataformas digitais, existe o risco de entrarmos cedo demais em um corredor visual. Pesquisamos uma coisa, o algoritmo identifica nossas preferências e começa a oferecer variações daquilo. Aos poucos, parece que todo mundo está usando a mesma tipografia, as mesmas cores, o mesmo tipo de fotografia e as mesmas referências. Para quem ainda está formando o próprio olhar, ter contato com livros, arte, história, cinema, fotografia, arquitetura e tudo aquilo que escapa à busca imediata por “referências de design” pode fazer uma enorme diferença.
Nossa biblioteca nos deu muito disso. Os livros abriam possibilidades projetuais e mostravam até onde o design poderia ir. O que não significa, é claro, que conseguíamos levar todas aquelas possibilidades para os projetos que fazíamos. Para um trabalho realmente experimental chegar à rua, não basta o designer querer experimentar. É preciso que cliente, gestores e fornecedores também estejam dispostos a assumir algum risco, além de haver orçamento e prazo para isso. E é preciso existir uma cultura de design que permita entender por que determinada solução, mesmo que pareça estranha num primeiro momento, pode ser a melhor resposta para aquele projeto.
No Brasil, essa cultura existe de maneira bastante desigual. Ao longo da nossa trajetória, vimos boas ideias serem simplificadas porque pareciam ousadas demais, porque o cliente não se sentia seguro para defendê-las internamente ou porque simplesmente não havia verba para produzi-las. Muitas vezes seguimos tendências que já tinham sido testadas, aprovadas e assimiladas em outros lugares. É compreensível: empresas precisam responder por seus investimentos e inovação envolve risco. Mas quando todos esperam que alguém teste primeiro, acabamos repetindo muito mais do que inventando.
A chegada das plataformas de referências trouxe ainda outra mudança para a relação entre designers e clientes. Hoje é muito comum o cliente também pesquisar e chegar ao briefing com uma pasta cheia de imagens. Isso pode ser ótimo, porque ajuda a conversar sobre expectativas, mas nem sempre existe uma ideia conectando aquelas escolhas. Gosta da cor de uma, da fonte de outra, da fotografia de uma terceira, acha uma quarta “sofisticada” e uma quinta “moderna”. Quem trabalha com criação conhece bem a cena. Nosso trabalho passa então por tentar entender o que existe por trás daquele conjunto de preferências e transformá-lo em alguma coisa coerente. A referência, que antes servia principalmente para ampliar as possibilidades de um projeto, muitas vezes chega hoje quase como uma indicação do resultado esperado. E gosto pessoal e conceito acabam se misturando mais do que deveriam.
Agora temos uma nova camada nessa história: a inteligência artificial. Se as plataformas multiplicaram nossa capacidade de encontrar referências, a IA está multiplicando nossa capacidade de produzir imagens. É fascinante e nós também estamos aprendendo a trabalhar com essas ferramentas, mas isso torna uma questão ainda mais importante: diante de tantas possibilidades, como escolher? Quanto mais fácil fica gerar uma imagem, mais necessário parece saber por que queremos aquela imagem, o que ela comunica e se ela realmente tem alguma relação com o projeto. A tecnologia pode gerar, o algoritmo pode recomendar e a busca pode encontrar, mas alguém ainda precisa olhar, selecionar, relacionar, descartar e pensar. Nesse sentido, repertório, cultura visual e capacidade crítica talvez estejam ficando ainda mais importantes.
E os 800 livros?
Voltamos, então, à pergunta inicial. Se acreditamos em tudo isso, por que estamos nos desfazendo dos nossos livros? Porque não precisamos ter 800 deles para preservar o que aprendemos com eles. A Refinaria está mudando, nossa sede vai ganhar novos usos e não fazia sentido manter centenas de volumes fechados em caixas ou ocupando um espaço enorme apenas porque fizeram parte da nossa história.
Fizemos uma seleção. Ficamos com boa parte dos livros de arte, que continuam sendo uma base fundamental da nossa educação visual, e com aqueles que ainda consultamos ou têm algum significado especial. E adotamos também um critério curatorial bastante objetivo: ficaram os que couberam na estante. Alguns dos demais foram distribuídos entre a equipe, muitos estão sendo doados e outros foram colocados à venda. Gostamos especialmente da ideia de que possam chegar às mãos de estudantes, designers, artistas e outras pessoas interessadas em cultura visual, porque assim continuam fazendo exatamente aquilo que fizeram conosco durante tantos anos: ampliando repertórios e provocando ideias.
Não estamos jogando fora a história da Refinaria. Estamos fazendo uma edição dela. Depois de quase 30 anos, saíram quase 100 sacos de papel, centenas de livros e uma quantidade razoável de “será que a gente não vai se arrepender disso?”. Algumas coisas ficaram, outras seguiram adiante, e a Refinaria segue também, só que mais leve.
Nosso jeito de trabalhar mudou muito desde a época em que os caixeiros-viajantes do design chegavam ao escritório carregados de livros. Hoje, boa parte do nosso trabalho acontece de forma virtual, o que nos permite estar em muitos lugares ao mesmo tempo, trabalhar com pessoas e equipes que estão longe, viajar sem necessariamente parar de trabalhar e, principalmente, continuar vendo o mundo. E isso também é uma forma de aumentar repertório, talvez uma das melhores.
Seguimos curiosas, afiadas como sempre e abertas a novos projetos, novas ferramentas, novas formas de trabalhar e a tudo o que ainda não conhecemos. Estamos incorporando a inteligência artificial, acompanhando as mudanças da nossa profissão e tentando fazer o que sempre fizemos: entender o que realmente faz sentido usar, em vez de simplesmente correr atrás de cada novidade.