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O invisível que sustenta a floresta: bastidores do livro Cogumelos

102 espécies de cogumelos, uma descoberta inédita e uma jornada de design que começou antes da primeira página. Veja como a refinaria participou de cada etapa de Cogumelos – Fazenda Bananal.

O livro nasceu de expedições e pesquisas conduzidas entre 2021 e 2022 na Fazenda Bananal, em Paraty (RJ), sob liderança da bióloga Noemia Kazue Ishikawa. O resultado é uma documentação de 102 espécies de fungos da Mata Atlântica paratiense — entre elas, a descoberta inédita do Tulostoma paratyense. As fotografias são de Rafael Estrela, que conseguiu capturar algo difícil: a beleza efêmera de organismos que, na maior parte do tempo, vivem debaixo da terra, sustentando a floresta sem que a gente nem perceba.

É um livro que entrelaça ciência, conservação e sabedoria local. E, no fundo, é um convite para enxergar o invisível — entender que proteger a floresta também é proteger aquilo que não se vê a olho nu.

Entrando no projeto desde a primeira página em branco

A gente entrou nesse projeto antes mesmo de existir uma página. Desde o início, ajudamos a equipe a pensar formato, tipo de papel e viabilidade econômica, sempre mostrando diferentes caminhos gráficos possíveis para o livro. Essa é uma etapa que a gente leva muito a sério: o formato de um livro não é só estética, é decisão que afeta custo, prazo e até a forma como o leitor vai se relacionar com o conteúdo.

Por isso, orçamos cada livro com três gráficas diferentes. E não trabalhamos com comissionamento — porque entendemos que isso geraria um conflito de interesse direto com uma das nossas funções principais: garantir que o livro saia exatamente do jeito que o cliente quer, sem que a escolha da gráfica esteja contaminada por interesse financeiro nosso na decisão.

Diagramação: onde a ciência ganha forma visível

Diagramar um livro como esse envolve resolver uma quantidade grande de questões que, juntas, definem se o livro vai funcionar ou não. A gente cuidou do grid e da hierarquia tipográfica — como títulos, legendas e corpo de texto conversam entre si na página — e também de toda a relação entre texto e imagem, já que aqui as fotografias do Rafael Estrela carregam boa parte do peso narrativo do livro. Isso incluiu pensar em sangria, recorte e respiro visual para cada fotografia, além de padronizar o tratamento de cor entre imagens vindas de diferentes momentos das expedições, para que o livro tivesse uma unidade visual do início ao fim.

Como o livro documenta 102 espécies, também desenhamos a estrutura das fichas técnicas de cada cogumelo, criando um padrão que se repete de forma consistente, mas sem cansar o olho. Cuidamos do sumário, do glossário e dos elementos gráficos de apoio que ajudam o leitor não-especialista a entrar em um universo técnico sem se perder. E, claro, todas as decisões de formato e papel se converteram em definições concretas de capa, folha de rosto e ficha catalográfica, fechando o ciclo entre o que foi pensado lá no início e o que efetivamente chega às mãos de quem lê.

Sentados à mesa com quem entende de cogumelo

Participamos das reuniões com os autores e nossa cliente, do Observatório da Biodiversidade, sugerindo soluções e mantendo uma escuta aberta com toda a equipe envolvida. Esse é um exercício interessante: ouvir pesquisadores falando sobre conexões micorrízicas e ciclagem de nutrientes, e traduzir aquele entusiasmo científico em decisões de design que façam justiça ao conteúdo.

Por que a gente se apaixona por cada projeto

Trabalhar na refinaria é nunca saber, de um projeto para o outro, qual vai ser o próximo assunto que vai virar obsessão temporária. Um dia é tipografia para um livro de arquitetura, no outro é a anatomia de um fungo que vive boa parte da vida debaixo da terra. Essa diversidade de temas é, sinceramente, um dos motivos pelos quais a gente ama o que faz: cada projeto novo é uma porta para um assunto que a gente nunca tinha mergulhado de verdade.

Depois do Cogumelos, ficamos sensibilizadas. Não tem mais trilha tranquila — toda caminhada na mata agora vem com uma pausa inevitável para examinar aquele cogumelo que, antes do livro, a gente nem teria notado no chão. Acho que esse é um dos efeitos colaterais mais bonitos do nosso trabalho: a gente não só ajuda a contar a história de cada projeto, a gente sai dele carregando um pedaço da curiosidade de quem pesquisa aquilo.

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